Salva pelo angu!

Quando eu era um bebê minha mãe me deixava com minha madrinha, tia Lena, enquanto trabalhava. Junto comigo ia o manual de instruções. Minha mãe enviava uma lista que deveria ser seguida à risca com o modo de preparo da minha comida. O pediatra falava com ela: essa menina tem que engordar 1 kg por mês! E eu engordava no máximo 500 g. Minha madrinha passou bastante aperto no começo, pois eu não dava sossego. Ela me dava a papinha de cenourinha amarela cozida e passada na peneira de vidro, a maçãzinha raladinha, tudo muito cheio de mimimi. Eu comia e dormia. Minha tia espiava da porta para ver se podia iniciar seus afazeres domésticos, mas em menos de trinta minutos eu acordava faminta, chorando copiosamente. Um dia, cheia de não conseguir varrer o chão sem ter que ninar e reninar um bebê chorão, tia Lena foi até a cozinha, pensou e repensou e decidiu. Botou pra cozinhar um punhado de feijão, enquanto preparava um angu. Fez um angu bem cozidinho, nem ralo nem duro, no ponto. No meio do angu amassou o feijão recém-cozido. Pegou-me no colo, me sentou, botou um babador e lascou a primeira colherada. Eu, pelo que me foi contado, se já soubesse falar, teria pedido pelo amor de Deus pra que me dessem mais e mais daquela delícia! Como eu não falava, ria e comia a papinha turbinada dando bitoca de alegria. Rapei o prato! Tia Leninha me colocou pra dormir sem muito esforço. Lá pelas tantas, depois de ter arrumado meia casa, tia Lena foi ver se estava tudo bem e eu ainda dormia. Quando foi dando a hora da minha mãe me buscar tia Lena foi ficando nervosa: eu não acordava! Ela me sacudiu, me chacoalhou, me revirou e cutucou. Nada. Me deu por morta. Quando minha mãe chegou, tia Lena logo deu a notícia: matei sua filha com angu! As duas choraram em cima do defuntinho magricela. Acordei feliz depois de um soninho ininterrupto. Depois desse dia minha mãe abandonou a tal lista e adotou o angu na minha dieta. Aí foi fácil alcançar a antes impossível meta do 1 kg por mês!